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GESTÃO DE BARRAGENS: RISCOS E RESPONSABILIDADES FOI TEMA DE EVENTO NO SENGE - 18/04/2019 - 00h00

GESTÃO DE BARRAGENS: RISCOS E RESPONSABILIDADES FOI TEMA DE EVENTO NO SENGE


Debater e atualizar informações sobre condições de operação e gestão das barragens no Rio Grande do Sul, identificando lacunas de responsabilidades e riscos operacionais a serem enfrentados foi o objetivo central de um evento que reuniu especialistas e profissionais da engenharia no auditório do SENGE, na tarde dessa quinta-feira (18). Com o tema "GESTÃO DE BARRAGENS: RISCOS E RESPONSABILIDADES”, o fórum SENGE-ABES atraiu engenheiros, estudantes e demais profissionais de nível superior, gestores públicos e privados com responsabilidade técnica sobre as barragens existentes no RS.

A iniciativa, realizada pelo SENGE e pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental-ABES/RS, é motivada pela necessidade de conhecer a situação geral dessas instalações em nosso Estado, especialmente após o desastre de Brumadinho/MG, que reacendeu a discussão sobre a segurança das barragens.

Na abertura, o presidente do SENGE, Alexandre Wollmann, deu as boas-vindas aos presentes à casa do engenheiros e lamentou o fato de que o evento, assim como o seminário realizado pelo SENGE em Santa Maria, seja motivado por um lado reativo. “O meu desejo é que nós pudéssemos nos reunir aqui para discutir sobre inovações, mas estamos aqui, novamente, debatendo reflexos de uma tragédia que abalou o Brasil inteiro”, frisou. O presidente do SENGE lembrou ainda que o Sindicato tem cumprido seu papel de oportunizar o diálogo com a sociedade e especialistas da Engenharia, e aproveitou para convidar aos presentes para conhecer o trabalho que o SENGE tem desenvolvido à frente de debates semelhantes relacionados tanto à Engenharia gaúcha quanto à nacional.

Na sequência, foi a vez da presidente da ABES-RS, Jussara Kalil Pires, destacar a importância do tema discutido no Fórum. “É com satisfação que a ABES ao lado do SENGE recebe esse público para um evento que tem o objetivo de ser um diálogo técnico. Esse é um evento pensado para favorecer o diálogo entre as pessoas” afirmou. A presidente da Abes lembrou ainda que é necessário manter-se atento às dificuldades do Rio Grande do Sul, muitas vezes decorrentes da falta de gestão de cuidado: “Vamos olhar para o RS com a lição de Minas Gerais – quais são os nossos problemas, e como estamos enfrentando - se o estamos?” questionou.

Em seguida, o evento prosseguiu com a palestra “SEGURANÇA DE BARRAGENS – condicionantes geotécnicos e casos históricos”, apresentada pelo Luiz Bressani (UFRGS), a palestra: Segurança dos Projetos, apresentada pelo engenheiro Valery Pugatch, e, por fim, a palestra 3: Tragédias Anunciadas, com o engenheiro Carlos André Bulhões Mendes (UFRGS/SENGE-RS).
 

LEGISLAÇÃO É INEFICIENTE PARA PREVENIR NOVOS ROMPIMENTOS, AFIRMA ESPECIALISTA EM PALESTRA NO SENGE

“Segurança de barragens, condicionantes geotécnicos e casos históricos” foi tema da palestra do engenheiro Luiz Bressani, que abriu a programação do Fórum SENGE – ABES.

Casos históricos de omissão, equívocos, desconhecimento técnico, negligência. Tragédias que vitimaram centenas de pessoas e causaram prejuízos ambientais irrecuperáveis, como ocorrido em Mariana após o rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em 2015, e que se repetiu quase três anos depois, em Brumadinho, têm em comum uma legislação limitada e a ineficiência dos órgãos de fiscalização.

Embora estes eventos tenham motivado a discussão mais profunda sobre o que rege a Lei em relação à responsabilidade, pouco de fato se avançou para evitar que tragédias semelhantes voltem a ocorrer. O alerta é do engenheiro Luiz Bressani em palestra durante o Fórum SENGE ABES, realizado na tarde da quinta-feira (18), em Porto Alegre.

Diante de uma plateia lotada de profissionais da Engenharia e de outras áreas interessados no tema, Bressani discorreu sobre casos históricos e estatísticas ao redor do mundo, bem como a atual lei de segurança de barragens e os aspectos técnicos do assunto, os tipos de barragens, e as classificações de risco. “Barragem de rejeito não deveria ser chamada de barragem, mas de pilha de rejeito úmido” frisou.

No caso de Brumadinho, “a discussão sobre plano de ação emergência foi grande avanço, fundamental para a defesa civil e para a população. Mas ele não reduz as consequências, não atua na causa do desastre. Causa a falsa impressão de que está tudo certo, quando na verdade não está”, lamenta o engenheiro.

 

PALESTRAS TRATAM SOBRE SEGURANÇA DOS PROJETOS E TRAGÉDIAS EM BARRAGENS  

Segurança dos Projetos foi o tema da segunda palestra, ministrada pelo engenheiro Valery Pugatch, membro do Conselho Técnico Consultivo do SENGE.

Pugatch apresentou dados sobre a situação do Rio Grande do Sul, que segundo dados oficiais, conta com cerca de 10 mil barragens voltadas à irrigação. O Estado  é responsável por 70% da produção nacional de arroz, que ocupa em torno de 1 milhão de hectares e utiliza barragens para irrigação com altura média menor do que 10 metros, desenvolvimento de 100 a 3000 metros, acumulação de 1 a 2000 ha e volume de reservatório 90% menor que 3 milhões m³.

O engenheiro também listou algumas das causas mais comuns para rompimentos de barragens, como  vertedor insuficiente, borda livre insuficiente, infiltração interna, entre outras. Apontou ainda itens que considera fundamentais para a segurança dos projetos de barragens, como análise das fundações de acordo com o tipo de solo encontrado, a correta avaliação da dimensão da bacia de contribuição, o cálculo de estabilidade do maciço, as condições de jusante e critérios de projeto (seção transversal ,taludes, vertedor, borda livre, controle da percolação, compactação, tomada d´agua).

Pugatch também mencionou a legislação federal e estadual que regulamenta a outorga e segurança das barragens.

Encerrando as palestras do Fórum SENGE ABES, Carlos André Bulhões Mendes criticou a postura reativa frente às tragédias que vem acontecendo no país, em detrimento de ações preventivas. O engenheiro é diretor do SENGE e do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, e também atuou como perito no episódio de Mariana junto ao Ministério Público Federal. Segundo afirma, essas tragédias não são problemas de Engenharia, sendo que na maioria dos casos representam o dilema entre a técnica e a falta de vontade política para que a Engenharia possa ser exercida. “É preciso uma investigação de responsabilidades, mas mais importante que isso, é discutir as causas para que o episódio não se repita”, disse Bulhões.

Como doutor e professor da área de Engenharia, Bulhões ressalta que o tema de mecânica dos solos compõe os currículos acadêmicos há muitos anos e que a literatura existente nessa área, ainda que seja antiga, segue atual e deve ser referência para o trabalho exercido pelos profissionais. Ele também trouxe dados técnicos sobre as barragens existentes no Brasil, sobre a legislação que rege a área e criticou a forma como são importadas certas tecnologias internacionais sem levar em consideração as características locais.

Encerrou sua palestra com a pergunta: “Quando vale a vida de uma pessoa envolvida em uma tragédia como essas que estamos vendo? No momento em que perdemos o significado do valor da vida, a Engenharia vira nada. E nós, enquanto profissionais, temos sim a responsabilidade sobre isso.”

 

Assista: 

Acesse os arquivos das palestras:

Segurança de barragens – condicionantes geotécnicos e casos históricos (Luiz Bressani - UFRGS)
Segurança dos Projetos (Valery Pugatch - SENGE-RS)
Tragédias Anunciadas (Carlos André Bulhões Mendes - UFRGS/SENGE-RS).